Em grandes cidades como Nova York, Paris, Londres e Berlim, um projeto diferenciado é motivo para longos debates na mídia. Por que isso não acontece no Brasil?
Thursday, July 16th, 2009Quando eu tinha nove ou dez anos, gostava de desenhar as plantas de onde estava, como a da minha casa ou a de minha avó, de ler revistas de arquitetura e folhear livros de história da arquitetura. Como a família dizia que eu desenhava bem, ficou a idéia de que eu seria arquiteto no futuro. Não sou, para felicidade geral dos habitantes, mas o assunto me interessa tanto que às vezes chego a pensar que há certa frustração aí. Frustrante, porém, é a maneira como ele é tratado no Brasil. As revistas especializadas são poucas e muito técnicas, os jornais generalistas mal tocam no assunto, as pessoas cultas não parecem incluí-lo na pauta. Em grandes cidades como Nova York, Paris, Londres ou Berlim, cada prédio novo que chame a atenção – seja comercial, residencial ou público – é motivo para intermináveis debates sobre sua estética e pertinência.

Pode ver que temos arquitetos de projeção internacional, a começar por Oscar Niemeyer, mas não temos críticos de arquitetura de porte equivalente. A culpa não é do trabalho de pessoas como Lauro Cavalcanti, Hugo Segawa ou Fernando Serapião, mas da falta de interesse da sociedade em geral, da mídia e das editoras em particular. Não temos Kenneth Frampton, Giulio Carlo Argan, Lewis Mumford – não temos um pensamento sobre arquitetura e seu papel na vida urbana e no desenvolvimento humano. Apesar de picos de qualidade, a média de nossas construções em cidades como Rio e São Paulo é muito baixa: são prédios mais de engenheiros do que de arquitetos, com aspecto feio ou comum. Ou então são os arranha-céus em estilo “neoclássico”, kitsch demais em sua tentativa de ser chique, com nomes como “maison” ou “plaza”.

Quando prédios dos medalhões da área despontam, é verdade que o debate surge nos jornais e é ouvido em conversas de bar. Mas a polêmica vem mais da aberração do que da reflexão. Nossos arquitetos famosos gostam de fazer obras que destoam completamente do entorno, do contexto urbano, e assim vemos paralelepípedos de vidro e alumínio com detalhes em roxo ou verde-limão serem erguidos em bairros como Higienópolis, em São Paulo, onde uma arquitetura de estilo anos 50 – com pilotis de pastilha e rampas entre jardins – é a predominante. Não há diálogo nenhum.

A boa notícia é que há uma resistência e ela vem encontrando um mercado que cresce a cada ano. Arquitetos como Isay Weinfeld, Marcelo Morettin, Alvaro Puntoni, Angelo Bucci e a turma do Triptyque, na capital paulista, têm feito casas, edifícios e lojas com uma linguagem sofisticada, contemporânea, preocupada com o espaço público e com uma estética heterodoxa. Estrangeiros como Alvaro Siza (Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre), Christian de Portzamparc (Cidade da Música no Rio) e Herzog & De Meuron (Teatro da Dança em São Paulo) têm, finalmente, aportado por aqui. Quem sabe assim, aos poucos, mais crianças que gostam de desenhar plantas continuem a fazê-lo quando adultas.
fonte: Revista Ocean Air
Texto de Daniel Piza, publicado em 01 de março de 2009 em www.danielpiza.com.br



